Categoria: Biologia Molecular
Título: Considerações sobre doenças sexualmente transmissíveis
Artigo:
Maria da Gloria da Costa Carvalho e Maria Christina Soares Rebello
Dentre as doenças sexualmente transmissíveis, uma das mais frequentes é a causada pelo vírus do papiloma humano (HPV) pois, estima-se que uma entre quatro mulheres esteja contaminada pelo vírus HPV, ou já tenha tido contato com o vírus.
Dentre as mulheres que entraram em contato com o vírus, porém, apenas 5% desenvolverão a lesão, pois em 90% dos acasos o vírus é eliminado espontaneamente. Nas propagandas, pouco se fala que o homem também pode estar contaminado, apresentando verrugas no
pênis, no ânus e nos testículos. A maioria dos homens, entretanto, não apresenta sintomas.
É importante lembrar a transmissão de infecções por vírus da família Herpesviridae, como o Epstein Barr (EBV), Citomegalovírus (CMV) e o Herpes simplex (HSV). Em 1996, Voog E. (Acta Derm Venereol Suppl 1996;198:1-55) observou em lesões acetobrancas de vulva, a presença de DNA-EBV em 48% das lesões e HPV em 17%. Sendo portanto a infecção por EBV podendo ser confundida cominfecção por HPV.
Outros trabalhos sugerem que na vulva, as lesões acetobrancas podem estar associadas ao EBV. Nas vulvovaginites ulcerativas em pacientes com AIDS, tem sido detectado a presença de CMV nos macrófagos e nas células endoteliais da vulva e vagina. Como estes achados clínicos não são usuais, deve-se sempre pensar na possibilidade da presença de CMV. Ulceras genitais, geralmente são correlacionadas à infecção por herpes simples. É importante, porém, fazer o diagnóstico diferencial com EBV (J.Pediat Adolesc Gynecol 1998 Nov;11(4):185-7). Em estudo do trato genital com 62 pacientes (J Med Assoc Thai 1999 Mar;82(3):263-7) foi demonstrado que o EBV-DNA estava presente
em 17 (56.7%) das 30 amostras positivas para HSV. O EBV-DNA foi detectado em swabs de vagina, uretra, anal e cervical. O trato genital masculino e o feminino podem manter infecções subclinicas por EBV, sendo portanto um reservatório para este vírus. No trabalho citado no Int. J. Cancer 1995 Sep 27;63(1):58-62, em estudo
epidemilógico de câncer cervical, em 187 casos de lesões genitais, os pesquisadores chamam atenção para associação de CMV, EBV ou HSV com câncer cervical nas pacientes negativas para infecção por HPV. Foi determinado na Itália (J. Med Virol 1996 Sep;50(1):1-4), a prevalência de HPV, CMV e EBV em cervix de mulheres com citologia
normal, os resultados mostraram que a taxa de infecção por HPV 16, CMV e EBV era de 23%, 21% e 19% respectivamente. Em jovens de 17 a 25 anos, a presença de co-infecção viral era de 16.6 %, indicando que infecções multiplas em mulheres jovens podem ter implicações no desenvolvimento de câncer genital. Em relação à detecção do DNA-HPV por PCR em mulheres brasileira infectadas por HIV em Santos (São Paulo) (Int. J.STD. AIDS 1999 Dec;10(12): 803-7), revelou que aproximadamente, 40% do DNA-HPV não era detectado pelas sondas ou kits comerciais disponíveis, mostrando a necessidade de um estudo amplo dos tipos virais na população brasileira.
A presença do DNA-EBV foi detectada em 51% de câncer de mama, rincipalmente nos tumores mais agressivos, porem o EBV não estava presente em áreas adjacentes ao tumor sugerindo que o vírus possa ser um co-fator para o desenvolvimento do câncer de mama.
Ainda em relação à co-infecção viral, no trabalho publicado no J. Theor Biol 160,249-264, os autores mostram que proteínas da superfícies dos vírus CMV, HTLV e EBV apresentam regiões com similaridade à proteína CD4 do linfócito T. Como o HIV utiliza o CD4 como receptor, êle pode se ligar a homólogos de CD4 do CMV, HTLV ou
EBV, infectando células para as quais o HIV usualmente não tem tropismo. Estes estudos mostram que nas doenças sexualmente transmissíveis não devemos esquecer a presença de outros vírus, pricipalmente os da família Herpesviridade.